Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem...
Teresa corou:
– Não foi ninguém... Foi ideia minha...
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.
[ ... ]
Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes... – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.
[ ... ]
À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua... Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.
[ ... ]
– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava... – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido...
1 comentários:
Neste Natal
DESEJO...
Desejos que nos conduzam ao encontro da alegria.
Desejo reencontros... reencontro com a criança que há em nós.
Desejo um Natal de valores e não futilidades.
De solidariedade e não vaidades tolas.
De sonhos sonhados e realizados.
De luz e sabedoria.
Desejo paz ...
muita paz.
Otimista eu?
Talvez,mas acredito em mágia e milagres.
licia
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